TWITTER – MODINHA?

Este ano começou sob o signo do Twitter. Uma verdadeira febre assaltou os jornais e televisões, não se passa uma semana sem um artigo, notícia ou reportagem sobre o fenómeno e, por arrasto, os social media.

Só um ermita mal informado pode achar que este media frenzy em torno do Twitter é exclusivo nacional e não passa de uma borbulhenta “moda”. Depois da mediática e da política, também a América do dinheiro vive fascinada com os gráficos de crescimento mais empinados de que se recorda. Em Fevereiro, dados da ComScore, 4 milhões visitaram o site a partir dos Estados Unidos, contra 2,6 milhões no mês anterior. Uma taxa de crescimento de 55% AO MÊS, comparada com os 33% registados em cada um dos 2 meses anteriores.

Um disparo brutal.

E o site só representa uma parte da utilização. A maior parcela, mas uma parcela que andará pelos 40% apenas; o resto do uso do serviço vem por centenas de outros interfaces, muitos dos quais em aparelhos móveis, que rivalizam no acesso através da API – o mecanismo que permite a essa legião de terceiros construir serviços e produtos em cima do Twitter. (Eu, por exemplo, uso o TweetDeck, um programa mais versátil que me permite organizar as minhas 3.700 fontes; e injecto informação – como os títulos dos artigos que escrevo aqui no Expresso – através de mais dois serviços, um dos quais feitos à mão.)

A febre mediática passou o Atlântico, a caminho do Brasil, onde na semana passada a quantidade de notícias disparou por seu turno.

Enquanto nestes países o interesse se resume a “o que é o Twitter” e “para que serve o Twitter”, nos EUA os últimos dias foram dominados por assuntos bem mais caros, digamos assim. A confirmação de rumores antigos sobre a tentativa de aquisição por parte do Facebook, num negócio que ascenderia a 500 milhões de dólares, e os rumores, estes frescos, de um alegado interesse da Google que o CEO Eric Schmidt não confirmou nem desmentiu, estiveram na ordem do dia.
Contudo, mais que as alucinadas verbas com que os jornais e blogs sempre se encantam nestas situações, outros elementos surgiram na última semana, indicando qual é, afinal, o “campeonato” do Twitter.


NÃO QUEREMOS MAIS CAPITAL

Comecemos por dizer que o Twitter não tem receitas.

Ninguém entendeu, ainda, de que pode o Twitter sobreviver quando se acabar o capital de risco.

Aparentemente, os menos incomodados com a situação são os detentores de dinheiro. Apesar das polidas recusas dos fundadores, Jack Dorsey, Biz Stone, e Evan Williams, que dizem viver bem com os 20 milhões de funding iniciais, as empresas de capital de risco saltitam em torno deles com cheques na mão. Mas um homem não é de ferro e o financiamento vai agora em 55 milhões.

Os experts “aconselham” Williams, o CEO, e Stone, a figura pública, a meter publicidade nas páginas.

Os desenvolvedores de aplicações e serviços pedem, por favor, para pagar! Querem mais acesso à API, que tem limites de utilização muito duros. (Eu estou, muito humildemente, neste grupo: disposto a pagar uns dólares mensais para ter mais de 100 acessos por hora àquela maravilhosa base de dados.)

Mas o Twitter continua sem receitas e a fazer orelhas moucas a todos.

Porquê?

Há dias uma das figuras conhecidas dos social media, Jason Calacanis (CEO da Mahalo), disse que pagava 125.000 dólares por ano, adiantando 250.000 por dois anos em cheque ao portador, simplesmente para ter o seu nome de utilizador numa página nova que o Twitter passou a mostrar aos novos utilizadores no final do processo de inscrição. Uma página contendo 100 sugestões de utilizadores a “seguir” (no Twitter não há “friends” como no Facebook e outras redes, mas sim “followers”).

Estalou uma discussão sobre se Calacanis estaria doente, se era um golpe de marketing, ou se devia ser levado a sério. Para começo de conversa: ele propôs a compra directamente a Evans, só depois o disse publicamente. Estava a sério.

Contas?


NÃO QUEREMOS O SUPERBOWL



Acredito que no prazo de 5 anos cada lugar do top 20 da lista de recomendações valha 1 milhão por ano“, escreveu Calacanis, equiparando o Twitter ao intervalo do Superbowl. Erick Schonfeld interpretou no TechCrunch ( How Much Is A Suggested Slot On Twitter Worth? Jason Calacanis Offers $250,000 ): “Calacanis pretende fixar o preço agora pois acredita que é uma grande oportunidade de marketing. É vulgar as pessoas da lista de sugestões ganharem 10.000 novos “followers” por dia. Isto dá 3,6 milhões por ano e mesmo que metade deixe de subscrever, ainda resta um canal directo para mais de um milhão de potenciais clientes. E clientes que sentem uma ligação com a pessoa por causa da natureza pessoal das mensagens no Twitter“.

Eu não compro metade da explicação, mas ainda resta alguma coisa… Foi mais ou menos o que escreveu a seguir Michael Arrington, um dos homens mais bem informados acerca das novas oportunidades. O Techcrunch é uma das contas que passou a figurar na lista das recomendações.

Números.

Num mês a conta do Techcrunch no Twitter mais do que triplicou a audiência, de 65.573 a 11 de Fevereiro para 217.187 no dia 12 de Março. O tráfego para a publicação oriundo do Twitter aumentou também, mas menos: cerca de 20%. Ao contrário do que os “novos gurus” dos social media andam a vender aos embasbacados clientes, brandindo as manchetes dos jornais para se justificarem, a reputação online não é um pacote de pudim instantâneo. É preciso uma montanha de pudim, um rio caudaloso e mexer durante meses ou anos. Os clientes antigos do Techcrunch valem mais que os recém-chegados, que ainda não têm um(a sensação de) relacionamento com Arrington e a sua marca no Twitter.

Mas sempre são 150.000 páginas por mês que a conta no Twitter, alimentada a 140 caracteres de cada vez, proporciona ao Techcrunch. É dinheiro.

Apesar de ser dinheiro, Williams não aceitou o cheque de 250.000 dólares de Calacanis.

Porquê?

QUEREMOS UMA FATIA DO BOLO DA GOOGLE

A resposta pode ser bastante simples. Resumível numa única palavra.

Qual é a actividade na Internet que mais lucros gerou a uma empresa, tornando-a mesmo num colosso financeiro global?

A pesquisa.

A Google.

O Twitter aponta ao campeonato da pesquisa. O Superbowl é pouco para ele.
Feche a boca do espanto, leitor, e escute a minha história. Que é comum a milhares. Há cerca de 3 meses o meu consumo de pesquisa no Google começou a baixar. Desde que incorporei na barra de pesquisa, no canto do meu browser, os resultados da Wikipedia e do Twitter. Uso cada vez mais este último.

A pesquisa no Twitter é, ainda, demasiado simples. Não é universal, no sentido em que há temáticas com belos resultados e temáticas deficientes. Mas o Google também começou pela simplicidade e quem se recorda desses tempos sabe que o Altavista era mais eficaz fora das áreas técnicas. O desenlace foi rápido – mas não se pode dizer que a culpa tenha sido da Google: basicamente, o Altavista deixou-se dominar, impotente, pela indústria do sexo, que conspurcou (é o termo) os resultados usando técnicas que depois a Google viria a “branquear” chamando-lhes de “optimização”.

Os resultados do Twitter têm uma GRANDE vantagem sobre os resultados do Google e, adicionalmente, uma vantagem não tão grande. A grande: são produto exclusivo da filtragem humana. A pequena: funcionam em tempo real.

Nenhum conjunto de algoritmos – nem mesmo os mais brilhantes de todos, que são os da Google – conseguiu ainda superar o julgamento humano. Nem em qualidade nem em rapidez. As nossas sinapses são simplesmente melhores. E praticamente instantâneas.

Assim, defendem alguns, os resultados de uma extraordinária máquina de atenção humana – isto é, o Twitter – são não apenas melhores a eleger os conteúdos de maior valor como mais rápidos, sendo produzidos em tempo real.

Para mim, funciona. Mas em grande medida porque o eixo dos meus interesses passa pelos assuntos mais populados no Twitter: o Twitter ele próprio, a indústria informática, a web, o design, os acontecimentos internacionais, as energias alternativas, a política americana e portuguesa. Nestes campos, seguir o meu conjunto de fontes e ocasionalmente efectuar pesquisas no universo mais alargado do Twitter faz-me perder menos tempo a encontrar a informação certa.

Na realidade, no Twitter não procuramos a informação; programamos uma rede de fontes para nos alimentarem continuamente, 24 horas sobre 24 horas, um caudal ininterrupto do que está a acontecer e do que é melhor. Mas isso já é desviarmo-nos do assunto.

Paulo Querido , jornalista

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